Bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes ao primeiro artigo da série Mulheres Negras na Tecnologia. Este espaço nasce com um propósito claro e urgente: resgatar a memória, celebrar o legado e dar visibilidade a nós, mulheres negras, e às nossas contribuições fundamentais para a engenharia, a ciência e a tecnologia ao longo da história.
Durante séculos, o racismo e o machismo estruturais tentaram apagar os nossos nomes dos livros e dos grandes marcos científicos. Olhar para quem veio antes e abriu caminhos à força de muito conhecimento e coragem é essencial para entendermos que a tecnologia também é — e sempre foi — o nosso lugar.
Quando a tecnologia era feminina: da maioria ao apagamento histórico
Para quem observa o mercado de tecnologia hoje — ainda maioritariamente masculino e branco —, pode parecer que sempre foi assim. Mas a história conta outra verdade: as mulheres já foram maioria na computação.
Desde o século XIX, com o primeiro algoritmo processável por uma máquina, até meados do século XX, o desenvolvimento de software, a programação dos primeiros computadores eletrónicos (como o ENIAC) e os cálculos complexos de balística e exploração espacial eram funções desempenhadas maioritariamente por mulheres — muitas delas cientistas e matemáticas negras, as chamadas "computadores humanos". Naquela época, o hardware (a máquina física) era visto pela sociedade patriarcal como a parte "nobre" e masculina, enquanto programar e calcular eram atividades associadas ao trabalho de escritório, de catalogação ou de telefonia, sendo delegadas às mulheres. No Brasil, até à década de 1970, as primeiras turmas de Ciência da Computação em grandes universidades chegavam a ter maioria feminina.
Porque deixámos de ser maioria?
Essa mudança não aconteceu por falta de interesse ou aptidão, mas por um processo histórico de exclusão à medida que a área ganhou prestígio económico e poder:
Valorização financeira e elitização: A partir das décadas de 1960 e 1970, quando ficou evidente que o software era o verdadeiro coração da revolução tecnológica e uma indústria altamente lucrativa, a programação passou a ser redefinida como uma carreira de elite, atraindo em massa o público masculino e empurrando as mulheres para fora dos cargos técnicos e de liderança.
A cultura do computador pessoal nos anos 1980: Com a chegada dos primeiros PCs, a indústria de tecnologia e publicidade passou a direcionar os computadores e os videojogos exclusivamente para o público masculino, vendendo-os como "brinquedos de rapazes". Isso criou o estereótipo cultural do nerd/hacker homem, branco e antissocial, afastando as mulheres das salas de aula de exatas nas décadas seguintes.
Para nós, mulheres negras, essa barreira sempre foi dupla: além do filtro de gênero nas ciências exatas, enfrentámos o racismo institucional que historicamente tentou restringir-nos ao trabalho braçal e subalterno. É exatamente por isso que abrir esta série com a história de Enedina Alves Marques é tão simbólico: em pleno Brasil da década de 1940, ela rompeu todas essas barreiras de uma só vez.
Enedina Alves Marques (1913–1981) — A Pioneira Brasileira
Enedina Alves Marques foi uma das maiores pioneiras da engenharia nacional e um símbolo inquestionável de resistência e representatividade na ciência brasileira. Nascida em Curitiba em 13 de janeiro de 1913, entrou para a história como a primeira mulher a formar-se em Engenharia no estado do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil, desafiando os padrões raciais, sociais e acadêmicos da sua época.
Origem, Infância e Carreira no Magistério
Única menina entre os dez filhos de Paulo Marques e Virgília Alves de Marques (conhecida como Dona Duca) — um casal negro que migrou para Curitiba no período pós-abolição em busca de melhores condições de vida —, Enedina foi criada na casa da família do delegado e major negro Domingos Nascimento Sobrinho, para quem a sua mãe trabalhava como empregada doméstica.
Como Enedina tinha a mesma idade da filha do patrão, Domingos matriculou as duas nos mesmos colégios para que fizessem companhia uma à outra. Assim, ela foi alfabetizada na Escola Particular da Professora Luiza Dorfmund (entre 1925 e 1926) e frequentou a Escola Normal entre 1927 e 1931, formando-se no curso Normal. Diplomada professora normalista em 1932 pelo Instituto Paranaense em Magistério, foi aprovada em concurso e admitida pela Secretaria de Educação e Saúde Pública do Estado do Paraná a 16 de julho de 1932.
Entre 1932 e 1935, lecionou em diversas escolas públicas de municípios do interior — como São Mateus do Sul, Cerro Azul, Rio Negro e Campo Largo (na Escola Isolada de Passaúna) — e também na capital, na Escola da Linha de Tiro do Juvevê, período em que terá integrado redes de resistência da comunidade negra paranaense.
A Conquista do Diploma em Engenharia Civil
Determinada a ir além e ingressar no ensino superior, Enedina regressou à capital entre 1935 e 1937 para frequentar o Madureza (curso intermediário exigido na época, equivalente hoje a um supletivo) no Novo Ateneu. Nesse mesmo período, passou a morar com a família do construtor Mathias Caron, no bairro Juvevê, e alugou uma casa em frente ao Colégio Nossa Senhora Menina, onde montou classes seriadas de alfabetização e deu aulas particulares para crianças que não tinham acesso à escola pública.
Em 1945, aos 32 anos, Enedina diplomou-se em Engenharia Civil na região sul do Brasil (pela atual Universidade Federal do Paraná — UFPR). A sua formatura, realizada no tradicional edifício do Palácio Avenida ao lado de 32 homens, foi tratada com enorme curiosidade pela sociedade curitibana por representar a transposição de um espaço hegemonicamente masculino e branco.
Grandes Obras e Liderança Técnica
Em 1947, iniciou a sua trajetória na Secretaria de Viação e Obras Públicas (SVOP) como auxiliar de engenharia, sendo designada para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica. Tornou-se a primeira engenheira a chefiar a Divisão de Engenharia da Seção de Estatística do Estado e, após realizar o levantamento de vários rios paranaenses, atuou como Fiscal das Obras da Usina Elétrica de Cotia, onde desenvolveu pesquisas sobre o levantamento topográfico do canal adutor entre os rios Saci e Cotia.
Reclassificada por concurso como Engenheira da SVOP em 1951, ganhou destaque e reconhecimento no cenário nacional ao trabalhar em grandes obras de infraestrutura.
Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira (Usina Governador Parigot de Souza): A sua obra de maior projeção, na qual projetou e conduziu pesquisas topográficas fundamentais.
Infraestrutura Educacional e Pública: Participou ativamente no projeto e na construção de diversos grupos escolares e edifícios públicos no Paraná, incluindo marcos como o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário (CEU).
Durante as obras, enfrentando cotidianamente o preconceito de gênero e de raça num ambiente maioritariamente ocupado por homens, Enedina ficou conhecida por ser uma profissional enérgica e rigorosa, que se impunha sempre. Relatos biográficos destacam que, para fazer respeitar a sua autoridade técnica perante operários e subordinados que questionavam o comando de uma mulher negra, ela vestia o macacão e levava uma arma na cintura, disparando tiros para o ar quando precisava de exigir silêncio e respeito na obra.
Reconhecimento e Legado para Mulheres na Ciência e Tecnologia
Em 1961, o sociologo Octávio Ianni entrevistou Enedina como parte da sua célebre pesquisa "Metamorfoses do escravo", financiada pela Unesco. Em 1962, ao completar 29 anos de serviço público, aposentou-se pelo governo do estado e recebeu o reconhecimento oficial do governador Ney Braga, que, por decreto, admitiu os feitos de Enedina enquanto engenheira e lhe garantiu proventos equivalentes ao salário de um juiz.
Enedina Alves Marques faleceu em 1981, aos 68 anos, deixando um legado imortal para a engenharia e a tecnologia no Brasil:
No ano 2000, foi imortalizada ao lado de outras 53 mulheres pioneiras do Brasil pelo Memorial à Mulher, localizado na Praça do Soroptimismo, no bairro Hugo Lange, em Curitiba.
Em 2006, foi fundado em Maringá o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, em sua homenagem.
A sua história continua a ser celebrada por conselhos de classe, universidades e projetos de incentivo a mulheres nas ciências exatas e computação — como o projeto Meninas na Robótica (CEFET/RJ) e o CREA-PR —, provando que a nossa presença na tecnologia tem raízes profundas e inabaláveis.
Referências Bibliográficas e Fontes Consultadas
BENITE, Anna M. Canavarro. Enedina Alves Marques: Primeira Engenheira Negra do Brasil. Revista da ABPN, v. 12, n. 33, jun./ago. 2020, p. 688-691[cite: 1, 2, 3, 4].
CREA-PR. Enedina Alves Marques: pioneira na engenharia e símbolo de resistência. Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná, maio de 2025. Disponível em: https://www.crea-pr.org.br/ws/2025/05/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-e-simbolo-de-resistencia/.
FERNANDES, José Carlos. Negra Enedina, a engenheira. Gazeta do Povo (Vida e Cidadania). Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/negra-enedina-a-engenheira-11zwmvt8aj8h2nbi9qb61drr2/.
GAZETA DO POVO. Conheça a história da engenheira Enedina Alves Marques. Gazeta do Povo (Vida e Cidadania). Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/conheca-a-historia-da-engenheira-enedina-alves-marques-8zvma39hdusiu2rc2hmv4cklq/.
INBEC. Conheça a história de Enedina Marques, a primeira engenheira negra do Brasil. Instituto Brasileiro de Educação Continuada. Disponível em: https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-enedina-marques-primeira-engenheira-negra-brasil.
PEREIRA, Lara de Lanna. Enedina Alves Marques: pioneira na Engenharia brasileira. Projeto Meninas na Robótica (Categoria: Mulheres na Ciência) – CEFET/RJ, 18 ago. 2026. Disponível em: https://eic.cefet-rj.br/meninasnarobotica/index.php/2026/08/18/enedina-alves-marques-pioneira-na-engenharia-brasileira/.
Por Natália Granato (@nataliagranato), na organização Tech Contra Bolsonaro.
Ler publicação original no DEV.to

