ARTIGO
Do laboratório de Israel à Abin paralela: soberania digital e o voto do dia 25
A tecnologia que vigia e escolhe alvos em Gaza é parente da que o bolsonarismo usou para espionar brasileiros.
A tecnologia que vigia e escolhe alvos em Gaza é parente da que o bolsonarismo usou para espionar brasileiros
Romerito Pontes
Pensa no seu dia. O banco tá no celular, o trabalho tá na nuvem, a conversa com a família passa pelo WhatsApp e boa parte do que você lê foi escolhida por um algoritmo. Agora a inteligência artificial entrou no pacote, e ela escreve, traduz e cada vez mais decide.
Quem controla essa infraestrutura controla muita coisa, e por isso a soberania digital virou assunto político. O Pix mostrou isso. Em julho, o governo Trump impôs ao Brasil um tarifaço de 25% justificado, entre outras coisas, pelo Pix e pelas decisões da nossa Justiça sobre plataformas digitais.
Tecnologia não é neutra
Soberania digital não significa apenas manter servidores em território nacional. Significa ter capacidade de decidir como os dados são utilizados, auditar os sistemas, controlar a infraestrutura estratégica e substituir fornecedores sem ficar refém de empresas privadas. Sem isso, um país pode ter seus próprios órgãos públicos e leis, mas continuar dependente de tecnologias cujas regras e condições de uso são definidas por empresas estrangeiras.
Tem gente que trata a tecnologia como ferramenta neutra, que serve pro bem ou pro mal dependendo de quem usa. Só que essas ferramentas têm projeto manifesto e têm dono. As big techs vivem de extrair dados e vendem infraestrutura para Estados, inclusive para fazer guerra.
Israel é o exemplo mais escancarado. Pelo Projeto Nimbus, de 1,2 bilhão de dólares, Google e Amazon guardam dados do governo e das forças armadas israelenses. E o contrato proíbe as duas de limitar o uso, mesmo quando ele viola as regras delas. A Unidade 8200, a espionagem militar de Israel, armazenava gravações de milhões de ligações de palestinos nos servidores da Microsoft, que só cortou parte do serviço em 2025, depois que a imprensa revelou o esquema.
Uma fábrica de alvos, testada em palestinos e vendida ao mundo
Em Gaza, essa engrenagem virou linha de produção de morte. Investigações da revista +972 com oficiais da própria inteligência israelense revelaram o Lavender. Ele dava a quase todo morador de Gaza uma nota de 1 a 100, conforme a chance de ser militante. No auge, ele marcou 37 mil pessoas. A checagem humana levava uns 20 segundos e servia basicamente para confirmar que o alvo era homem.
Outro programa, o Where’s Daddy?, avisava quando a pessoa marcada chegava em casa. O ataque vinha em geral à noite, com a família dentro, e para cada alvo de baixo escalão o exército aceitava matar de 15 a 20 civis. O resultado aparece nos números do próprio Estado israelense: uma base da inteligência militar indica que pelo menos 83% dos mortos em Gaza eram civis. Já são mais de 74 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde local.
Isso também dá dinheiro. Em 2025, Israel bateu o quinto recorde seguido de exportações militares, com 19,2 bilhões de dólares, e o Ministério da Defesa credita a procura ao desempenho “comprovado em combate” dos seus sistemas. O genocídio virou argumento de venda, e a fatia dos equipamentos de vigilância saltou de 6% para 22%.
O Pegasus, da israelense NSO, foi usado para invadir celulares de jornalistas e ativistas pelo mundo. A Elbit vende torres de vigilância para a fronteira dos Estados Unidos com o México. E veteranos da Unidade 8200 viram donos de startups que as big techs compram a peso de ouro, como a Wiz, vendida ao Google por 32 bilhões de dólares.
Bíblia, bala e software espião
O bolsonarismo abraçou Israel por motivos que vão além da fé. Tem o sionismo cristão de boa parte da base evangélica, claro. Bolsonaro foi batizado no rio Jordão em 2016, e a bandeira de Israel virou figurinha carimbada nos atos da extrema direita. Mas a relação também envolve negócios e método.
Em 2019, o governo Bolsonaro assinou com Israel acordos de defesa, segurança pública e cibersegurança. Meses antes, Witzel e Flávio Bolsonaro planejavam ir a Israel conhecer um drone que atira em voo, usado na fronteira com Gaza, para trazer ao Rio. O modelo de segurança que eles admiram é o da ocupação.
E o método chegou aqui. No governo Bolsonaro, a Abin usou o FirstMile, programa da israelense Cognyte, para rastrear celulares sem autorização judicial. Bastava digitar o número para ver no mapa onde a pessoa estava. A Polícia Federal contou mais de 60 mil consultas entre 2019 e 2021, com ministros do STF, adversários, jornalistas e até líderes de caminhoneiros na mira.
Para a PF, essa estrutura alimentava o gabinete do ódio, que transformava espionagem em ataque nas redes. Carlos Bolsonaro foi indiciado e acaba de ser eleito senador por Santa Catarina. Em 2021, segundo o UOL, ele já tinha tentado fazer o Ministério da Justiça comprar o Pegasus num pregão de R$ 25 milhões, passando por cima da própria Abin. A Abin paralela também aparece no processo da trama golpista que condenou Jair Bolsonaro.
A conexão não é que o Brasil tenha reproduzido exatamente o sistema militar empregado em Gaza. É que a mesma indústria internacional fornece ferramentas capazes de ampliar o poder de vigilância dos Estados, com riscos que vão da violação de direitos à perseguição política. Vigilância em massa e projeto autoritário andam juntos.
Um projeto entreguista
Por isso o bolsonarismo também é um retrocesso na soberania digital. Eduardo Bolsonaro foi aos Estados Unidos pedir sanções contra o Brasil, e o governo brasileiro diz que a investigação que terminou no tarifaço foi aberta por provocação da família. Em junho, Flávio mandou carta ao governo Trump colocando sua futura equipe de transição “à disposição” dos americanos.
Flávio também prometeu levar a embaixada para Jerusalém e entrar nos Acordos de Isaac, a aliança de Milei e Netanyahu para a América Latina, que tem a segurança como um dos eixos. Netanyahu declarou apoio e disse que quer ir à posse se ele vencer. Isso não é só diplomacia, é negócio.
O alinhamento com Netanyahu coloca em questão os interesses econômicos e militares que podem acompanhar essa aproximação. A indústria israelense de defesa e vigilância tem interesse em ampliar seus mercados, e a cooperação entre governos pode abrir caminho para novos contratos. É preciso cobrar dos candidatos compromissos claros sobre compras militares, tecnologias de vigilância e proteção dos dados dos brasileiros.
E o governo Lula?
Nada disso faz do governo Lula um defensor da nossa soberania. Lula critica o genocídio, retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv e entrou no processo da África do Sul na Corte de Haia. Mas não rompeu relações diplomáticas, comerciais nem militares. Em julho, deu sinal verde para destravar a compra de 36 obuseiros da Elbit, num contrato que pode chegar perto de R$ 1 bilhão. E o petróleo brasileiro só parou de ir direto para Israel em 2025, depois de muita pressão de petroleiros e do movimento BDS.
O software livre foi bandeira do PT nos anos 2000, mas hoje o dinheiro vai para as big techs. Foram cerca de R$ 10 bilhões em licenças, nuvem e segurança entre junho de 2024 e junho de 2025, quase metade no governo federal, segundo estudo da USP e da UnB. A tal nuvem soberana roda em máquinas de Amazon, Google e Huawei, com Oracle e Microsoft chegando. A ministra Esther Dweck admitiu que a maior parte das universidades federais guarda seus dados no Google. E em setembro Lula sancionou o Redata, que abre mão de R$ 5,2 bilhões em impostos só em 2026 para atrair data centers.
Voto crítico, nenhuma confiança
Por isso, no dia 25, nossa posição é o voto crítico em Lula, no 13. Bolsonaro foi condenado por tentar um golpe. Flávio representa a continuidade desse projeto autoritário de mudança reacionária do regime, com Abin paralela, alinhamento automático a Trump e Netanyahu e entrega do pouco que temos de soberania. Derrotar isso nas urnas é necessário.
Votar em Lula não quer dizer confiar nele. Um governo que mantém negócios militares com Israel e entrega os dados do país às big techs não vai defender nem a soberania nem os palestinos. Isso depende da nossa mobilização. Pelo rompimento com Israel e pelo embargo militar e de petróleo. Pelo fim dos contratos com empresas de espionagem como a Cognyte. E por tecnologia sob controle público, com software livre e infraestrutura própria.
O desenvolvimento tecnológico deve estar a serviço do bem-estar e da melhoria da qualidade de vida. Não da perseguição, espionagem e opressão. No debate de uma Palestina livre, do Rio ao Mar, ou no debate da soberania digital, quem trabalha com TI tem um papel especial nessa história. Não podemos nos furtar.